Crônicas da China | Conhecendo o inimigos? Os primeiros trumpismos para a China

É com essa postagem inaugural que o IEASIA tem o prazer de apresentar sua nova coluna, intitulada “Crônicas da China”, que virá a ser alimentada quinzenalmente por meio de nossos correspondentes em Wuhan, Mariana Yante e Alexandre Pereira. Esta em específico, é de autoria de Mariana, e debate os primeiros efeitos da vitória de Trump em relação à China.

 

 

Conhecendo o inimigo? Os primeiros trumpismos para a China

Por Mariana Yante, de Wuhan/China

 

Apenas um dia após o resultado oficial das eleições presidenciais nos Estados Unidos, um senhor chinês solenemente me interceptou no corredor do supermercado com um envelope perfeitamente endereçado à Casa Branca. Ele pediu para que lesse o documento, verificando a clareza e a correição da carta dirigida ao presidente eleito, Donald Trump, com entusiásticas palavras de admiração e votos de um bom governo. Embora as discussões locais em torno da política dos Estados Unidos quanto à China estivessem até recentemente centradas na insatisfação chinesa sobre a posição dos yankees no Mar da China Meridional, as eleições norte-americanas diversificaram as pautas.

Apesar de existirem posições diversas sobre os efeitos da eleição de Donald Trump para a China, é certo que os resultados eleitorais surpreenderam a mídia e a academia locais. Ao mesmo tempo em que Trump não hesitou em criticar a República Popular no curso da sua campanha, assegurando medidas protetivas a serem adotadas quanto às importações chinesas, parte da agenda prometida pelo novo presidente norte-americano representa, na verdade, alvíssaras para a China no cenário internacional.

Quando, aceitando sua nomeação para presidenciável pelo Partido Republicano, deixou claras as linhas do que seria sua agenda de campanha, ao anunciar que o “americanismo”, e não o “globalismo”, seria o seu credo, Trump antecipou seu posicionamento sobre alguns projetos regionais e megarregionais nos quais os Estados Unidos estão inseridos.

Entre muitas das declarações, o presidente eleito fez várias considerações sobre os prejuízos que o País tinha em relação ao Tratado de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA, por sua sigla em inglês), em razão dos produtos mexicanos que reingressavam em território nacional e competiam de forma desigual com a indústria doméstica, gerando um déficit comercial – o que certamente gerará discussões em torno de sua renegociação.

Além disso, Donald Trump fez promessas relativas ao Acordo Transpacífico (TPP, por sua sigla em inglês), que se concretizaram no pacote anunciado sobre seus cem primeiros dias de governo, que se inicia no dia 21 de janeiro, confirmando a retirada dos Estados Unidos. A parceria, assinada desde 2015, que abarcava doze países e excluía a China, era vista – juntamente com o arranjo de cooperação em negociação com a União Europeia, o Acordo Transatlântico de Comércio e Investimento (TTIP, por sua sigla em inglês) – como um novo modelo de governança interregional proposto pelo Norte Global.

É importante lembrar, porém, que ainda é precipitado avaliar como os acordos megarregionais de comércio e investimento vão impactar o futuro próximo – mesmo porque a China também vem se articulando por meio de sua política do One belt, one road (a qual discutiremos em outra contribuição) e do Regional Comprehensive Economic Partnership (RCEP), que, todavia, exclui as Américas.

Embora a então candidata do Partido Democrata Hillary Clinton tenha prometido rever alguns termos do TPP para proporcionar condições mais favoráveis às(aos) americanas(os), é importante lembrar que ela mesma teve um papel crítico na negociação do NAFTA como Secretária de Estado, bem como que o governo Barak Obama o ostentava como um dos trunfos para reafirmar a posição dos EUA no cenário multilateral, limitando a influência chinesa.

Não é à toa que o Presidente Xi Jinping e sua delegação, na reunião de cúpula da Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC) no Peru, no final de novembro, não hesitaram em afirmar que a China tomará uma posição dianteira no comércio internacional caso Washington adote uma política protecionista, assinalando que a República Popular “assegurará que os frutos do desenvolvimento sejam partilhados”.  Existem, também, rumores de que a China pela primeira vez participará do Foro Econômico Mundial, em Davos, no próximo mês de janeiro, apesar de a informação ainda não haver sido oficialmente confirmada pelo Ministério das Relações Exteriores chinês.

Por outro lado, após sua eleição, Trump vem adotando algumas posturas bastante controversas quanto à relação China-Estados Unidos. Na semana passada, o ex-candidato Republicano utilizou o Twitter para criticar a política monetária e comercial chinesa, e, na mesma publicação, ainda atacou a construção de um complexo militar em torno do Mar da China Meridional pelo país asiático.

Nos últimos dias, a imprensa chinesa tem dado muito destaque à ligação telefônica entre Donald Trump e a presidenta de Taiwan, Tsai Ing-wen, eleita pelo Partido Progressivo Democrático (Democratic Progressive Party-DPP), em janeiro deste ano. O partido taiwanês, que também obteve sua primeira maioria legislativa na história política de Taiwan, derrotou o Kuomintang (KMT), e é conhecido por sua agenda independentista. O deslinde político das relações entre a China continental e Taiwan ainda remanesce incerto, a despeito do pronunciamento, logo após as eleições nesta, do governo central no sentido de que as relações não mudariam, pois seguiriam baseadas na premissa do Consenso de 1992 (por meio do qual se reconheceu a unidade chinesa) e contrárias à independência de Taiwan.

No entanto, a comunicação entre Tsai Ing-wen e Donald Trump, em um contexto de tensões independentistas latentes e de um histórico de importações massivas de armamentos norte-americanos por Taiwan, foi vista como quebra do protocolo diplomático e inexperiência do presidente eleito. O episódio parece haver tido um desfecho conveniente para o governo Xi Jinping e para as relações sino-estadunidenses, considerando que, em sua defesa, Trump alegou que foi ele quem recebeu uma ligação da presidenta taiwanesa – o que se seguiu de um pronunciamento do ministro das relações exteriores chinês no sentido de que o episódio foi uma “brincadeira insignificante de Taiwan”.

No curso desta semana, algumas indicações feitas por Trump para seu gabinete voltaram a apaziguar os ânimos. Os rumores de que o embaixador norte-americano na China seria o atual governador de Iowa, Terry Branstad, foram seguidos por uma declaração do porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Lu Kang, que na última quarta-feira assinalou que Terry é um “velho amigo” da China, enfatizando, porém, que o país cooperaria com qualquer nome indicado por Washington.

Além disso, Trump indicou Elaine Chao – a primeira estadunidense de ascendência asiática a ser apontada para um cargo em gabinete presidencial – para a secretaria dos transportes. Chao, que possui raízes na China continental e goza de boas relações com Taiwan, parece ter sido mais uma resposta diplomática aos deslizes cometidos por Trump nos últimos dias.

Diante de um governo sequer iniciado, podemos ver que a eleição de Donald Trump e as incertezas que traz para a governança mundial e para o papel da China nesse contexto já são notáveis. Esperemos pelo conteúdo da próxima carta a ser escrita pela população chinesa ao mais novo presidente estadunidense.